fios-de-vida


hoje percebi que todos os meus desenhos ganham vida assim que pouso o pincel que seguro entre os dedos. pinto quando estou feliz, ou triste. funciona tudo e sempre da mesma forma. traço os principais jeitos de alguém não muito certo e por esses traços faço passar metade do que se faz sentir em mim: porque também eles - os não muito certos que nascem do meu cruzar de dedos com o pincel - merecem uma oportunidade que os leve a conhecer o que por cá se passa e porque a dor e a felicidade são mais fáceis de lidar quando partilhados.

fecha os olhos e desenha-me a mim. desenha essa falta.

palavras agudas


são o que trago junto ao peito marcado pela falta de tempo para deixar aqui uma palavra. talvez precisasse de o fazer quando os dias eram mais cinzentos. não que não goste do que por aqui se passa. apenas porque enquanto o meu ser se ocupa com tudo o que brilha na palma da minha mão, não há lugar para qualquer outra coisa. conto segredos ao ouvido de quem os sabe guardar e ofereço sorrisos silenciosos em troca de um beijo. sento-me por várias vezes na mesma sala de cinema, com as minhas mãos atadas a outras duas mãos, saboreando todas as palavras que me são oferecidas à vista com todo o cuidado. palavras que por sua vez são escolhidas a dedo por quem, eventualmente, percebe 'da coisa'. pode ser que sim, que percebam, mas só de palavras correctas, directas e que se mostram ir direitas ao assunto. não como nós: que nos sentamos, a fazer soar o som de pequenos quadrados gastos pelo tempo e o jeito de quem tão facilmente sente.